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VERLAINE LEMBRANDO RIMBAUD*

                                                                                       Adaides Batista - Dadá

“De novo me invade. Quem? – A Eternidade. É o mar que se vai com o sol que cai.”
E eu morro aqui neste quarto a espera de ti que abandonaste meu amor e a dor
Que deixaste comigo quando partiste deixando minha carne na saudade da branca
Carne tua penetrando-me no escuro tantas vezes jorrando lactente leite feliz ardor

Que se esvaía pelas minhas vísceras apodrecidas pelo vinho, pelo éter e o absinto
Que rejuvenescia minha alma ensangüentada buscando paz em tua carne de leite.
Silencio como cão abandonado, minhas vestes jogadas pelos cantos sujos desse quarto.
Umas tiveram o prazer de sentir teu corpo, o calor do teu corpo magro-branco-liso-azeite.

Perambulavas pelas ruas sujas da Paris imunda, fazendo-me feliz a gozar teu sorrindo
No teu rosto imberbe e cínico, zombando dos velhos mendigos e dos velhos versos
Que com tua poesia maldita matava-os enlouquecendo as estruturas poéticas mofadas
E eu sentindo, ao teu lado, o orgulho de ter-te e apresentar esse imenso sol ao Universo

Das palavras que tu torcias e retorcias criando imagens vis, fulgurantes, belas e inusitadas,
Construindo um mundo próprio e nos deixando, sem elaboração, sem imaginação, sem saída.
Vendo-me espécie de louco, como louco em tua companhia, buscando imagens  perdidas...
Bebendo esse buscar constante só pra ‘tá contigo, bebendo e sofrendo tua amarga bebida.

Hoje, resto de homem e de imagem, de sucesso e covardia, de tristeza, alegria, doce e dor
Nego-me neste chão velho de pedras;  deito  pra dormir e sonhar contigo querendo teu ser
Nestes braços fracos, esmorecidos e te ninar, te fazer criança solta, perversa no elaborar.
“Mas eu,fechado no meu sonho, inutilmente recomponho visões do que não pude ter”:

Na vida, sempre inferno, o que construí, destruí. Meus versos calaram-se,sou fugitivo da terra
Meu último pedaço de amor no corpo entregarei à terra, por isso vivo e lembro do loiro pagão
Perverso, safado, ordinário, pouco macho, às vezes minha mulher – era tudo como sua poesia:
Constante mudança. Mostrando que nada pára e que nós velhos, tínhamos envelhecidos em vão.

Pego resto de frutas em cima da pequena mesa, contemplo a natureza que agora vou comer.
Quanta poesia em tudo isso e eu preferi cantar o inverso - falar do que vai dentro de nós! E tu?
Passou a vida toda rindo do meu amor e minha admiração pelas suas formas surpreendentes
De armar os sons das palavras com imagens nunca vista, sendo na poesia como fostes sempre: NÚ!

 

 

* Verlaine (1844-1896) poeta simbolista francês, que embora casado, viveu um caso de amor, paixão e tragédias com o jovem poeta Rimbaud (1854-1891), também francês, que "pasmou os contemporâneos com uma precocidade poética - escrevendo obras-primas entre os 15 e os 18 anos"(Paulo Leminski) . O caso de paixão dos dois foi de idas e voltas, tumultos e brigas. Verlaine inclusive dá um tiro de pistola em Rimbaud, ato que o leva à cadeia. O final: enquanto Verlaine morria aos poucos num sórdido quarto de pensão , Rimbaud abandonou de vez a poesia aos dezenove anos, e se desesperou pelos desertos da África traficando armas e escravos.
“Depois de viver uma existência de pária, povoada de hospitais, prisões, móveis velhos e dramas sórdidos, Verlaine morre em Paris, aos cinqüenta e dois anos, em 8 de janeiro de 1896” (Yves-Marie Lucot).

 

 

 

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