
3. Você, por exemplo, perceber que este disco traz versos musicais, assim como “Peixe de vidro /
À tarde brilha transparente pelo sol”. Ou “Onde íris teu olhar irá”. [2]
4. Você, por exemplo, perceber que este disco coloca esse pernambucano onde ele sempre
esteve e estará. Entre os mais originais artistas de sua terra. Ele, para quem não sabe, um
dos responsáveis pelo sucesso, pela aparição e pela genuína glória do grupo Mestre Ambrósio –
cantando, compondo, arranjando e tocando fundo sua poderosa, fluente e influente percussão pelo Brasil e pelos cantos do mundo.
5. Você, por exemplo, perceber que este disco nasce assim como uma flor de mandacaru encontrada
no asfalto onde Cassiano mora, há quase dez anos, vivendo na cidade de São Paulo. Sem nunca
esquecer, é claro, da poética, das brincadeiras e festas do Recife – nem deixar de se inspirar nos
livros do João Cabral que ele tanto escuta: “Não é justo que um homem se veja / Bagaço de cana”.
Mostrando o tanto que era musical o poeta que não gostava de música. [3]
6. Você, por exemplo, perceber que este disco é repleto de maracatu e baião, coco e samba de roda –
numa linguagem única, que une a percussão (berimbau, pandeiro, alfaia...) aos instrumentos de
corda (violão, viola, cello, baixo...). E sem ser didático. Porque a palavra ciência se está aí é para
dizer que a beleza do conhecimento é ver o mundo rodando na palma da mão – o instrumento que
pode ser um galho de arruda (como o que vemos na capa) ou o coração que bate o ritmo de nossa
raiz, zabumba, boi e batucada.
7. Você, por exemplo, perceber que este disco vem também (dentro do encarte) com uma antológica
fotografia do autor em seus tempos de menino na escola, onde aprendeu esse talento que um Santo Ateu
lhe deu. Ou lhe deu um Deus africano, muçulmano, demasiadamente humano, para quem aquele menino
canta ou aquele moço (agora, visto na fotografia da contracapa) canta deitado em berço de grama. [4]
8. Você, por exemplo, perceber que este disco é difícil de dizer assim, escrever sobre ele num fôlego
tão curto. Logo eu que juro nunca fiz uma apresentação com tanta emoção, para tentar traduzir o que
não tem tradução. A natureza de cada letra, o arranjo aprimorado de cada canção.
9. Você, por exemplo, perceber que este primeiro disco solo de Sérgio Cassiano só está começando.
E que a Festa é das boas. E que só é preciso agora fazer um pouco de silêncio. E ouvir bem, um a um, neste irreparável CIÊNCIA DA FESTA, o som de cada sentimento.
[ Por Marcelino Freire * ]
* Marcelino Freire, pernambucano, é um dos principais nomes da nova geração de escritores brasileiros.
Autor, entre outros, dos livros de contos “Angu de Sangue” e “BaléRalé”. Também idealizou e organizou a antologia “Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século”.
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