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       Essa transformação elementar do natural em instrumento do seduzir, nos dá a beleza de "Innatura"...
 
"Sem dúvida os papagaios, araras, periquitos e afins (família Psitacidae), são as aves que no "Novo Mundo" mais chamaram a atenção dos colonizadores. Conta a lenda que Colombo na noite de seis de Outubro de 1492, teria desviado sua rota para o sudoeste seguindo o relato de que fora avistado um bando de papagaios. O próprio Brasil, nos mapas mais antigos, era amiúde chamado sob o nome de "Terra Papagali".

(Fauna e Flora Brasileira do século XVIII, pág. 69, Odebrecht).



Assim como a sonoridade de nossas aves mais características, "Terra Papagali Coffee Shop" vem propagar seu essencial de nossa pluralidade cultural e origens, convertidas em música brasileira da melhor qualidade. Não à toa o título nos remete a um elemento primordial: aqui pulsa o orgânico em sua leva autoral mais pura e genuína.

       Composto, idealizado e produzido por Piero Bianchi e Ricardo Chacon, este fruto maior de sua parceria de quase uma década, recria com a mesma liberdade de nossa era pré-descobrimento, o identitário de uma nova geração de talento, mas cujas influências perpassam pelo estudo e audição de grandes mestres como Edu Lobo, Chico Buarque e Tom Jobim. A afinidade e a sintonia artística destes jovens compositores atingem neste trabalho um raro apuro instrumental e lúdico: o que se sente é o gosto de sua vívida busca por seu "mundo novo".

       Gravadas no Brasil, França e Holanda de forma independente, as dez faixas atribuem ao disco um maior requinte pela ousada empreitada de seus idealizadores, mas sem maiores afetações. A cada canção, os rapazes e seus convidados passeiam com leveza pela atemporalidade do tema do amor à musa, sendo esta a mulher amada, a arte, a natureza ou sua fantástica fusão. Numa constante, a interpretação de Ricardo inscreve-se com singularidade: se apropria das ilusões que canta e as eleva à condição de possibilidade. É quando entra a brilhante co-construção de Piero: captar e devolver aos arranjos naturalmente ambas as personalidades melódico-conceituais.

       Reivindicando esse natural-espontâneo que permeará todo o repertório, "Som e Sol" pede passagem e traz na participação da cantora de Coco Isaar, a construção de um bonito contraste entre sua voz e a de Chacon: é a singela proposta de aproximar os dois elementos-chave ao ponto de quase confundi-los entre si, deixando claro o recado: para os artistas seu som é seu centro.

       Essa reflexão contemplativa sobre a natureza da arte continua em "Avançando em ondas" e converge para a máxima da capacidade humana de apreender-se afinal, em "Alora Allor", construindo com delicadeza o difuso componente de inspiração dos artistas.

       Já o tropicalismo tão típico de nossas paisagens encontra em recorrentes traços bucólicos uma significativa representatividade, como na quase metalinguagem de "Oferenda na praia": a metáfora das influências que permeiam o disco traduz em seu refrão a sensação do ofertar-se e ser acolhido por aquela melodia. Fica a ordem: "Receba essa devoção".

       Essa transformação elementar do natural em instrumento do seduzir, nos dá a beleza de "Innatura", com o charme adicional da francesa Camille Baroiller e a simplicidade tocante de "Vento e Areia", com a participação não menos encantadora da também estreante Cynthia Chacon. Nos duetos, a ilustração das partes envolvidas no jogo cênico-amoroso, desenhando a ambivalência das relações criada no âmbito da canção.

Com recortes cotidianos, "Preta Branca" traz no carisma e nas controvérsias de sua musa, o excelente "casamento" entre a temática do corriqueiro e a marchinha conduzida com graça. Tudo para dar um toque de leveza à obra, tão indispensável à vida e à toda grande paixão.

       Já no cume passional da "Terra" de Piero e Ricardo, "Algo Parecido" irradia o divagar pulsante do estar apaixonado e sua busca por alívio à ausência do ser amado. Seu tom é aguerrido e desperto: "a minha luta é minha vida", tal qual seu verso.

       Neste mesmo propósito, o de busca, a contagiante "Se vai, Se vem" reproduz em sua cadência rítmica o exato vai e vem da vida e do deslocamento constante de nossa felicidade ou "bem maior". A sensibilidade da canção é tamanha, que "assiste-se" ao dissipar suave de sua própria melodia em meio à uma levada tipicamente nordestina. Coisa de mestre!

       Nesse digresso percurso não poderia faltar um relato sobre o tempo, o efêmero fator extremo do amor à musa e à arte: no coro das belíssimas vozes de Dulce Chacon, Valéria e Inajá Moraes, se dá a alusão amorosa de "Tanto Tempo", representando o caráter universal do enamorar-se e encontrando no "solo cantado" do bandolim o que nos roga enquanto conjunto unitário da subsistência de nossos próprios sentimentos.

Sejam estes em terra de sonhos, sons, homens ou papagaios, não importa. Para quem bem sabe sentir boa música, basta fincar "os pés" aqui e talvez
um gole de café venha a despertar das insígnias de descoberta, um outro som, uma nova rota, um sempre intransferível e admirável
mundo novo. Atreva-se.

http://www.myspace.com/terrapapagali