O Retorno retoma o agreste e o sertão nordestinos após 50 anos

Depois de passar por São Paulo, Brasília e Salvador, documentário de Rodolfo Nanni estreia na próxima sexta-feira (20), às 20h30, no Cine Rosa e Silva
Quase um ano após ser lançado nacionalmente na 12a edição do Cine PE Festival do Audiovisual e levar os prêmios de melhor direção (Rodolfo Nanni) e fotografia (Roberto Santos Filho, o Tuta), além do Prêmio Josué de Castro para o melhor documentário social, e percorrer festivais e mostras Brasil afora, O Retorno volta ao Recife para desta vez entrar no circuito comercial. Será lançado na noite da próxima sexta-feira (20/3), às 20h30, no Cine Rosa e Silva, e terá a presença do diretor Rodolfo Nanni, 85 anos. Com distribuição da Pandora Filmes, a obra já passou por salas comerciais de São Paulo, Brasília e Salvador.

 

Segundo o diretor, O Retorno, além de ser um retrato da situação social dos nordestinos que vivem em condições precárias de vida, na região do semi-árido, é um estudo metalinguístico dos caminhos que levam um documentarista a explorar um assunto muito conhecido, a seca e a pobreza nordestina, porém de forma transparente e antropológica. “É um questionamento do papel das autoridades e um retrato fiel de quem vive um dia a dia de fome, subnutrição e luta”, resume.

 

A concepção de O Retorno vai além dos motivos e razões para se idealizar um documentário convencional, da busca por respostas. O filme é o documento da busca por um ideal: o de finalizar um trabalho que foi quase esquecido meio século atrás. Rodolfo Nanni tirou do armário o material que ainda restava de suas filmagens de 1958, quando, juntamente com Josué de Castro, realizou o documentário O Drama das Secas. Em 2006, voltou ao Nordeste e percorreu o mesmo roteiro do filme anterior, retratando, sobretudo, a vida dos pequenos agricultores que lutam pela sobrevivência de suas famílias.

 

“Em Garanhuns, começamos a entrar em contato com uma realidade muito mais trágica do que esperávamos: retirantes depauperados, na beira de estradas. Daí em diante, nos quatro mil quilômetros que rodamos pelas estradas cheias de pó, encontrávamos centenas e centenas de homens, mulheres e crianças, num misto de desespero e desesperança, à procura de um destino desconhecido”, relata Nanni ao se lembrar de sua viagem nos anos 50. O diretor diz que a luta destes seres humanos continua sendo a mesma: pela sobrevivência. “Apesar dos anos que se passaram, estas famílias ainda sofrem com questões básicas relativas a moradia, saúde e educação”, constata.

 

Nanni optou por inserir no corpo de O Retorno, muitas cenas de O Drama das Secas, propiciando uma inevitável e proposital comparação entre duas épocas o que, segundo o diretor, reforçou a dramaticidade das situações expostas no filme. “Freqüentemente me perguntam se houve mudanças nesse espaço de tempo, considerando que estamos falando de meio século. Nos últimos anos, não tem havido secas extremamente rigorosas, o que torna difícil uma comparação. Mas, infelizmente, constata-se uma estagnação em muitos aspectos das vidas de um imenso número de famílias com problemas cruciais de habitação, alimentação, saúde e educação”, ressalta.

 

TRILHA SONORA-Se no filme O Retorno, Rodolfo Nanni retoma, principalmente, o problema ainda não resolvido das secas - com suas trágicas conseqüências - a trilha musical do filme, assinada por Ana Maria Kieffer, parte de antigas cantigas de fonte, gênero de matrizes ibéricas nas quais a água funciona como metáfora da vida.

 

Da mesma forma tentou-se criar, através das vozes e instrumentos musicais da região, uma trama musical paralela na qual a música dialoga com a imagem, não apenas sublinhando seu significado, mas, Às vezes, contradizendo-o ou ampliando-o.

 

Para contracenar com a aridez das imagens, utilizou-se a grande riqueza de sons e timbres produzidos pelos instrumentos da região, cuja pesquisa teve o apoio generoso de Gilmar de Carvalho: as rabecas; o pife, ou pífano, (flauta de madeira tradicional ainda muito próxima a um traverso barroco); 8 baixos (sanfona de botões, sem teclado); as violas de várias épocas, como a viola de arame (guitarra barroca); a voz, utilizada de forma tradicional pelos cantadores e aboiadores; e a percussão.

 

Ao lado de todo esse tesouro de tradição oral, estão presentes, ao mesmo tempo e no mesmo espaço, a música eletrônica dos forrós urbanos, herança de outros, já quase desaparecidos, como os interpretados pelas bandas Aviões do Forró e Caviar com Rapadura.

 

SOBRE O DIRETOR-Além de O Retorno, Rodolfo Nanni dirigiu dois longas-metragens: o clássico O Saci (1953) e a primeira adaptação infantil de Monteiro Lobato, Cordélia (1971), co-produção da última fase da Vera Cruz com Lilian Lemmertz. Também realizou diversos curtas-metragens e documentários, como Avenida Paulista, premiado pela Embrafilme de 1977. Nanni também tem uma forte vida acadêmica, foi ele, aliás, quem fundou os primeiros cursos de cinema do País. Mais informações sobre o diretor no aquivo anexo.

 

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O Retorno

(SP, Documentário, cor, 75 min)

 

Sinopse

 

Em 1958, com Josué de Castro, Rodolfo Nanni realizou o documentário O Drama das Secas. Meio século depois, o diretor volta ao Nordeste, percorrendo o mesmo roteiro do filme anterior, retratando, sobretudo, a vida dos pequenos agricultores que lutam pela sobrevivência de suas famílias. Vencedor dos prêmios de melhor direção e melhor fotografia no Cine PE 2008.  80 min / Livre / Nacional / Documentário / Pandora

 

Ficha Técnica

 

Direção: Rodolfo Nanni

Roteiro: Rodolfo Nanni

Produção: AKRON FILMES

Fotografia: Roberto Santos Filho

Som: José Luiz Costa

Montagem: Rodolfo Nanni

Trilha Musical: Anna Maria Kieffer

Sound Design: Anna Maria Kieffer e Felipe Sander

 

Prêmios

 

Cine PE 2008 – Festival do Audiovisual

Vencedor do Prêmio de Melhor Fotografia: Roberto Santos Filho

Vencedor do Prêmio de Melhor Direção: Rodofo Nanni

Vencedor do Prêmio Josué de Castro para documentário social de longa-metragem

Fest Cine Goiânia –2008

Vencedor do Prêmio de Melhor Som

 

 

 

 
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