Principal Poesia Texto 1
GABRIEL ADAÍDES
PORTO VELHO
BILHETE PRA MAMÃE

Dona Ceci Batista não espere por mim hoje a noite e nem em noite nenhuma que eu não vou voltar nunca. Estou indo agora a igreja preciso rezar. Depois vou ao bar do Rasgado pois preciso ficar imediatamente bêbado que eu não estou compreendendo nada. São tantos cachorros nas ruas e mulheres bonitas me esnobam nesta tarde cinzenta de chuva.

Dona Ceci Batista não me espere nessa madrugada e nem em madrugada nenhuma que eu não vou voltar nunca mais. Agora vejo o rio que leva minha vida e não deixa parar. Tristezas se esvaem das minhas veias, são tristezas vermelhas, grossas como essas pernas que me provocam. Deixo aqui o que me resta de dinheiro, são migalhas que andei juntando pela vida. Migalhas, somente migalhas é o que valeu essa vida.

Dona Ceci Batista não espere por mim nessa tarde nem em tarde nenhuma que eu não vou voltar nunca. Preciso com urgência falar em público não sei pra quê e nem porquê. Faz tanto tempo que não vou ao médico que nem sei mais o que é doença. Os navios chegam aos portos trazendo em seus porões bichos negros para povoar uma terra de saudade, de ódio, de amor. Eu já nem sei dizer bom dia.

Dona Ceci Batista não espere por mim nessa manhã nem em manhã nenhuma que eu não vou voltar nunca mais. Se tiver tempo e lembrar dia ao papai que eu estou aqui sozinho nesse banco de praça acariciando no rosto a marca daquele beijo que ele nunca deu. As flores morrendo de medo brotam nos quintais dos apartamentos sólidos, placas de cimento emolduram nossas vidas que se arrastam com tristeza pelas esquinas podres que assaltam a juventude perdida.

 

Dona Ceci Batista não espere por mim nesse dia nem em dia nenhum que eu não vou voltar nunca. Os seios expostos tesudos me provocam. Lambo, sugo, mamo...Tanto libido disperso e desperdiçados nas casas fechadas pra vida. As laranjas colhidas espremidas nas mãos desperdiçam sucos que molham o chão preto asfáltico. Escrever, escrever, escrever, escrever...uma saída tola, ingênua por amar demais. Preciso urgentemente ir ao mercado para tomar um café.

Dona Ceci Batista não espere por mim nesse domingo nem em domingo nenhum que eu não vou voltar nunca. Seus olhos pretos e lábios, boca, cara sorriem pra mim enquanto assusto-me com as notícias de morte de almas e sofro, e morro, e choro, e perco os dias com ilusões, tantos desejos, tantos gostos...é um filme de terror delicioso que passa hoje nas sessões das dez de todos os dias. Sou um expectador infindo. Onde anda você menina que não apareceu mais?

Dona Ceci Batista não espere por mim nesse Natal nem em Natal nenhum que eu não vou voltar nunca. Tomo o primeiro trem às sete horas. Vejo as praças, os monumentos, o ar cortado em fatias e os dias passando em tons azuis. O céu não é mais o mesmo, as nuvens sumiram e as chuvas se foram. E eu viajando de trem olhando pra mata verde densa querendo sempre estar do lado de quem não devo. Esse trem leva somente eu como passageiro e eu não sei qual seu paradeiro.

Dona Ceci Batista não espere por mim nessa vida nem em nenhuma vida que eu não vou voltar nunca. Impossível. Eu não existo mais.

Dadá de Candeias


DADÁ DE CANDEIAS –

Uma pequena biografia Adaides Batista dos Santos, o Dadá de Candeias,
nasceu em 1958 na Ilha dos Mutuns, uma localidade situada no município de Porto Velho – Rondônia.
Vai para Porto Velho em 1962 e aí cursa as duas primeiras séries do antigo primário na Escola Barão do Solimões e as duas últimas no colégio Getúlio Vargas no famoso bairro daquela cidade – Areal. Cursa a 5ª série e o resto do primeiro grau no Colégio Dom Bosco.
Ingressa no Seminário Salesiano ( Balém e Manaus) mas vai terminar o 2º grau no Colégio “Estudo e Trabalho” em Porto Velho.
Cursa jornalismo na Universidade Federal do Amazonas onde funda e é o primeiro presidente do “MOAN” – Movimento Alma Negra. Primeiro movimento no Amazonas organizado a lutar pela causa e os direitos da raça negra. Na época ingressa no PCB - Partido Comunista Brasileiro – o Partidão, e participa de todas as lutas para a redemocratização do país.
Volta para Porto Velho, sua cidade, onde funda o “Movimento de Criação Cabeça de Negro”, movimento que defende pela arte a cultura negra, quando realiza vários shows com a temática negra com várias composições musicais suas como também dirigindo ( juntamente com outros integrantes do grupo - Jorge, Bubu, etc) os espetáculos.
Dada recentemente fixou residência em Pernambuco, em Jaboatão dos Guararapes, em Candeias, onde diz brincando que é descendente de Henrique Dias.

FIM
Os textos aqui publicados são de responsabilidade do colunista Gabriel Adaídes(foto), Jornalista de Porto Velho, Rondônia, hoje residindo em Recife.
jornalismo@vetorcultural.com
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