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  ENTREVISTA
 
 
 
 
Camilla Inês nasceu  no Recife – PE. Com um ano de idade muda-se para Brasília e ficou na Capital Federal até o  ano passado ( 2007),
quando volta e fixa residência no Recife. Filha de um casal de músicos e poetas  - Francisco e Vera Lúcia, que segundo Camilla
possuem mais de 500 poesias  musicadas e participaram de vários festivais de músicas.
Camilla Inês realizou show no último dia 19 de julho, na Livraria Saraiva do Shopping Center  Recife o Pocket Show,
quando verdadeiramente encantou o público com sua voz irrepreensível e um repertório de primeira qualidade.
Segundo o editor chefe e proprietário do site Vetorcultural, Pedro Rodrigues, Camilla Inês é a “mais expressiva voz do jazz em Pernambuco”.
Num final de uma tarde chuvosa na sede do site Vetorcultural, Camilla Inês, concedeu com exclusividade a seguinte entrevista:
 
Vetorcultural -  Como a música entrou na sua vida?
Camilla - Sim, os meus pais, a minha família é de músicos, então, eu sempre convivi com a música desde pequena.
Lembro da minha mãe sentada na beirada da cama tocando violão para a gente dormir. Então a gente sempre esteve
muito envolvidos a com a música. Sempre foi esse ambiente em casa, eles, meus pais, compondo.
Vetorcultural – Além dos pais, quais os artistas, músicos, você considera que mais influenciaram sua decisão pela carreira e sua forma de cantar?
Camilla - Olha como referência nacional, Elis Regina, Leni Andrade, Bethânia, as cantoras mais antigas e dentro do jazz, que é o trabalho que tenho me dedicado mais, a Sarah Vaughan  é a minha principal referência.  Eu me identifico mais em razão do timbre, da interpretação. Gosto muito das improvisações da Ella Fitzgerald e Billie Holyday, que também me influenciaram.
Vetorcultural - E a bossa nova? Você já flertou com a bossa nova? Você gosta ?
Camilla - Eu adoro a bossa nova, já fiz um trabalho com o repertório da bossa nova em Brasília. Agora aqui em Recife eu estou trabalhando mais o jazz.
No meu repertório eu mesclo muito os dois gêneros.
Vetorcultural - Você faz um trabalho profissional?
Camilla - Sim, a minha família como falei, vive da música. A gente sempre esteve envolvido em festivais. Os meus pais foram premiados várias vezes, então a gente sempre esteve envolvido com essa área. Meu trabalho como cantora é profissional.
Vetorcultural -  Tem algum trabalho gravado?
Camilla Inês - Eu fiz um registro recentemente. Entrei no estúdio e gravei 3 músicas. E essas músicas têm sido a referência do meu trabalho atualmente, mas em breve estarei lançando um CD. Estamos trabalhando com esse objetivo.
Vetorcultural - Qual seu último trabalho? O último show?
Camilla Inês - O último show nós fizemos agora em julho, dia 19 de julho na Livraria Saraiva e tivemos uma receptividade carinhosa, acolhedora e calorosa do público que esteve presente.
Vetorcultural - Qual o critério que você usa para escolher seu repertório?
Camilla - A melodia, a letra. Geralmente as letras falam de amor e esta referência é uma forma de eu expressar as emoções, as boas relações e as más relações que eu vivi.
Vetorcultural - Você discute com alguém esse de repertório?
Camilla - Eu tenho amigos, minha família, e eu conto com a própria banda que vem me acompanhando. Eles também auxiliam na escolha do repertório.
Vetorcultural – E a formação da banda?.
Camilla - Nessa última formação são cinco músicos. São músicos de grande expressão, não só no cenário pernambucano, mas, conhecidos nacional e internacionalmente. No trompete o Fabinho Costa; na guitarra, Wallace Seixas; no teclado Edilson Staudinger; na bateria, Misael Barros e no baixo acústico o Ricardinho Paraíso . Essa é a formação.
Vetorcultural - Você acha que é possível sobreviver com a sua arte?
Camilla - Não.
Vetorcultural - Por quê?
Camilla -  É muito caro, extremamente caro. Estamos num momento de muito investimento e dedicação. Essa dedicação toma tempo e aí, às vezes,  você não consegue fazer dinheiro em função da dedicação. As remunerações são muito aquém ainda em relação ao tempo que é dedicado para a elaboração, ensaio e apresentação de um trabalho e ainda tem a quantidade de material que tem que se adquirir para  fazer parte da pesquisa do trabalho. Tudo é muito dispendioso e a contrapartida em termos de remuneração não cobre as despesas.  
Vetorcultural - Como você analisa o mercado da música aqui no Recife? Para o cantor, o músico...
Camillla – Olha... esse meu trabalho aqui no Recife tem sido muito gratificante, porque o público já está começando a conhecer minha arte : Essa dedicação, essa pesquisa que a gente faz dentro do jazz, o reconhecido  talento dos músicos que me acompanham, a boa qualidade dos repertórios. A gente tem recebido muitos elogios nesse sentido - a escolha do repertório, dos arranjos que são feitos.
Vetorcultural - A concorrência pode ser tida como uma das dificuldades de se estabelecer no mercado musical no Recife?
Camilla - Eu acho que em termos de concorrência não, mas eu acho que ainda existe falta de conscientização por parte dos empresários de reconhecer o mérito de um trabalho artístico bem feito. Como é um bem intangível então é difícil especificar o valor. Então nós artistas conseguimos especificar com base nos custos que a gente tem para realizar um projeto. Mas para colocar  um preço final, muitas vezes o empresário põe um valor aquém do valor inicial investido. Economicamente falando, a dificuldade para se estabelecer no mercado,  a explicação acho que seria essa.
Vetorcultural - Você acha que existe certa tendência para patrocinar o que é mais fácil, o que não é musicalmente de boa qualidade?
Camilla - Recentemente até ouvi uma seleção para participação de um projeto desse circuito do inverno. E eu percebi que teve trabalho muito bom, alguns muito bons, mas outros estavam imaturos para serem selecionados. E eu conheço pessoas que se inscreveram e que tem trabalho muito bom e maduro e não conseguiram  ser selecionado para participar deste festival. Então não saberia dizer na realidade qual a percepção dos analistas da Secretaria do Estado na hora de fazer essa seleção, eu não saberia dizer. Porque vi trabalhos bons que não foram selecionados e vi trabalhos que estavam imaturos serem.
Vetorcultural - O que  acha da política oficial, participa, tem opiniões?
Camilla - Política eu prefiro não opinar. O sentimento que eu tenho de uma forma geral, é que falta responsabilidade dos políticos em relação aos seus eleitores, então a gente percebe um desrespeito. Tanto que na última eleição o número de votos nulos foi bem significativo. Acho que talvez com essa observação expresse o que penso de política. Na verdade prefiro não opinar politicamente.
Vetorcultural - Você acha que existe no Brasil, no Estado, no Município, políticas públicas sérias voltadas para o incentivo da arte? A arte musical que é o seu caso?
Camilla - Essa Lei Rounet quando criada foi um grande estimulo para que a iniciativa privada pudesse  patrocinar  projetos artísticos e houve um grande avanço, mas eu acho que ainda não estamos no patamar ideal. Acho que poderia haver mais disponibilidade de recursos com menos burocracia para  agilizar o processo da realização de projetos artísticos.
Vetorcultural - Você acredita que o artista é um transgressor? E preciso ele transgredir para ser considerado um artista bom e original?
Camilla - De certa forma originalidade e transgressão seriam sinônimos. Eu acho que não necessariamente o artista é um transgressor. Você tem trabalhos muito bons que retratam geralmente a insatisfação da sociedade, onde o artista retrata a insatisfação da sociedade do momento em que vive, mas com muita seriedade e sem haver transgressão ou agressão. Necessariamente não precisa ocorrer transgressão para se fazer um bom trabalho artístico.
Vetorcultural – Em sendo mulher, isso atrapalha um pouco na questão de vencer artisticamente, têm empecilhos  de apresentar, de mostrar seu trabalho?
Camilla - Não, eu acho que não. O que prevalece é a seriedade com que você realiza o seu trabalho. O comprometimento com a própria pesquisa do trabalho que você realiza e nesse caso não existe distinção de gênero. O comprometimento e a seriedade de um trabalho bem feito, é nisso que me concentro. Essa qualidade sim é o que mais importa.
Vetorcultural - E religião, você  pratica uma religião? Qual a sua religião?
Camilla - Eu sou católica praticante.
Vetorcultural -  A religião católica é uma herança familiar?
Camilla - Inicialmente foi familiar, educação familiar, mas hoje é uma questão de opção minha.
Vetorcultural - A velhice te preocupa?
Camilla - Preocupa.
Vetorcultural - Por que preocupa?
Camilla – Preocupa a questão da previdência; a questão da discriminação; a questão da saúde; ter um sistema de saúde que propicia uma  segurança. A questão da sobrevivência enfim.
Vetorcultural – O que achei interessante é que você não citou a questão estética. Isso não a preocupa?
Camilla – Eu acho que vale mais é o interior da pessoa, embora eu seja muito vaidosa... Sou vaidosa... Mas envelhecer também é uma sabedoria.
Vetorcultural – E a morte te assusta?
Camilla – Não. Eu acho que é uma coisa muito boa pela própria formação religiosa que tenho. É um renascer, um outro tipo de vida.
Vetorcultural – Qual sua opinião sobre  drogas?
Camilla – Eu acho assim... a juventude, os adolescentes hoje têm maior acesso as drogas do que na  época em que fui adolescente, eles fazem uso com mais facilidade. Existem drogas maléficas para a saúde e também para a questão social . Eu acho que as pessoas têm que ter responsabilidade pelos seus atos. Eu primo pela liberdade das pessoas, mas desde que essa liberdade não transgrida o bem estar de outras pessoas.
Vetorcultural – Como você define Pernambuco?
Camilla – Ah! um Estado que tem um público extremamente carinhoso, acolhedor, de uma criatividade artística, em geral maravilhoso. Aqui você encontra trabalhos excelentes. Na música você vai do frevo, maracatu, forro, côco, jazz e música instrumental, todos os ritmos. Músicos com muita qualidade, com passaporte para qualquer mercado no Brasil ou no exterior. É uma terra fértil na arte. Eu considero assim.
Vetorcultural  – Vejo que a maior dificuldade do lançamento do seu CD é a falta de patrocínio. E nós vemos no Recife e em outros locais, muitas bandas conseguindo lançar seus CDs e shows e tendo vastos patrocínios. Muitas dessas bandas, praticamente, não têm qualidade nenhuma, são bandas que tocam músicas de duplo sentido, etc. O que aconteceu com o público para preferir esse tipo de material ao material como o teu, por exemplo?
Camilla – Essa questão de patrocínio ela está mais relacionada com a Lei Rounet. Eu entrei recentemente com processo no Ministério da Cultura para tentar pleitear os recursos para finalizar o CD por intermédio da Lei Rounet. Então estou aguardando essa questão burocrática. Mas independente disso eu tentei em outras instituições privadas e estas preferiram investir em outras áreas. Priorizaram outras áreas. Com relação ao público eu não colocaria a responsabilidade para o público, muito pelo contrario, o público que tem acompanhado meu trabalho é um público extremamente fiel e isso é muito gratificante. Eu colocaria mais como questão da mídia, que massifica a cultura, e das empresas, na conscientização das pessoas que participam na área de marketing. Essas empresas priorizam esse tipo de projeto que você qualifica de “não ter praticamente qualidade nenhuma” ao invés do outro. Eu acho que isso vai mudar, essa mudança, é algo que vai acontecer em breve, eu tenho  certeza.
Vetorcultural – A mídia : o rádio, a televisão não tem parcela de culpa em privilegiar e tocar essas músicas de baixo nível, com letras péssimas, com péssimas harmonias? Porque você acha que isso acontece? E a o que você atribui isso?
Camilla – Eu atribuo à mídia que procura massificar a cultura e ao próprio público. Agora é lógico que existe dentro da indústria, uma tendência a massificar a vontade e a escolha das pessoas. Muitas vezes a pessoa acaba  escutando uma música mais devido o processo de constante repetição e não propriamente por uma questão de gosto. Analisando friamente o público não é  culpado, é mais falta de opção, de disponibilização ao grande público, via meios de comunicação, dos vários segmentos musicais. 
Vetorcultural – Então chegamos aí na conclusão que existe certa manipulação?
Camilla – Sim, por exemplo, a própria televisão com as novelas, tenta reeducar as pessoas com determinados comportamentos, quando às vezes, não é nem  comportamento natural da sociedade, então eu acho que isso massifica.
Vetorcultural – Camilla, então o que tem pela frente? Você vislumbra algum trabalho novo?
Camilla – Sim, dentro ainda dessa linha do jazz nós estamos preparando uma homenagem aos compositores brasileiros que também são jazzistas.  Nesse próximo show, a gente vai apresentar dentro do repertório, um pouco desse trabalho que é feito  no Brasil.
Vetorcultural – Quem, por exemplo?
Camilla – Johnny Alf... Tom Jobim. Tem muita coisa boa brasileira. Tem o João Gilberto que tem tantas coisas. Uma obra-prima, trabalho de excelência, o do João Gilberto.
Vetorcultural – O que é cantar para você?
Camilla – É tudo. Cantar é libertar a alma, é higienização mental, é falar de sentimentos. Atualmente a minha maior expressão, a minha maior forma de comunicação com as pessoas.
Adaides Batista dos Santos
jornalista colaborador do www.vetorcultural.com

 
 
Quem participou: Ed Staudinger no piano, Wallace Seixas na guitarra, Camilla Inês, Fabinho Costa, Trompete, Misael Barros, bateria, e Ricardinho Paraíso, baixo acústico
Stella Beltrão, Camilla Inês e Ricardinho Paraíso
Camilla Inês Camilla Inês e Eu, Pedro Rodrigues
Wallace Seixas, guitarra Fabinho Costa
Fabinho Costa e Ricardinho Paraiso
Misael Barros, bateria,
co-produtor do show
ED Staudinger, piano
 
SHOW
Aconteceu no Sábado, 19:00hs - 18 de julho
LIVRARIA SARAIVA DO SHOPPING CENTER RECIFE
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